Vida Longa ao Super-EGO
     
BRASIL, SAO PAULO, Homem, de 20 a 25 anos, Catalan, Cinema e vídeo, Livros
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Escrito por Super-EU! às 13h20
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Recessão

"E dizem que, num planetinha distante, localizado dentro da via láctea, havia uma civilização tão conectada entre si, mas tão conectada, que um mal entendido entre um homem e outro, causou uma crise de confiança tão grande em seu planeta que todos começaram a pensar que o final dos tempos havia chegado... E todos correram aos bancos para sacar dinheiro que todos achavam que já não havia... Os donos de empresa demitiram achando que não haveria mais para quem vender, e as pessoas saqueavam achando que não tinham mais o que comer, enquanto outras tantas entraram em guerra e perderam a vida por achar que não tinha mais nada a perder..."



Escrito por Super-EU! às 13h32
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O Fim da inspiração


Quando a Inspiração morreu, não tive vontade em organizar nada além de uma sala com um caixão simples e algumas velas acesas somente para cumprir o mórbido ritual. Estava atarefado demais com o dia-a-dia, e não tinha também muita esperança de que viesse alguém para dar-me os pêames de algo que estava sócomigo e se foi.
No final das contas, não houve muita gente mesmo... Vieram a Saudades relembrando os tempos grandiosos de criação de idéias para os meus contos, a Tristeza que adora estar por perto quando acontece qualquer tipo de perda e veio também o Arrependimento, que não parava de dizer que todos nós éramos culpados por deixar alguém tão interessante morrer assim, de uma hora pra outra, sem ninguém se dar conta.

Discordava um pouco dele, trazendo algumas desculpas a tira-colo chamadas: - “Tinha que trabalhar”, “Meu curso de espanhol levava minha inspirações para suas redações” e “Aproveite seu parco tempo livre longe das máquinas que você passa o dia todo junto a elas...” . No entanto, não ousei falar nada, o clima jáestava ruim demais para chamar na sala mais a raiva para aquele funeral.

  Da minha parte, não fiz mais do que franzir a sobrancelha e acompanhar o caixão descer os 7 palmos da terra enquanto dávamos os últimos Adeus a este querido sentimento que me acompanhou por tanto tempo desde a juventude.

  O que viria depois eu sabia... Viria o fim de um blog que eu mantinha na internet há um grande tempo, a esperança de que um dia eu publicaria um livro, e alguns sonhos que me permitiam fugir da realidade enquanto escrevia. Nada muito valioso, crescer no final das contas é isso mesmo... A gente abre mão de muitas coisas, pra se conseguir outras poucas ao fim da estrada... “

 



Escrito por Super-EU! às 12h16
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“Entrei na vida como se entra em um carro zero kilômetro. Cheirinho de novo, impossível não sorrir com o presente... Alisei os estofados e o painel, brilhando de novos... Bancos lisinhos, esportivos, elegantes... Passeava com ela, recem-tirada da concessionária da mamãe, e todos olhavam, sorriam, não sei se parabenizavam a meus pais ou a mim quando eu dirigia.

  Hoje, meu carro tem os pedais duros, o volante está desbalanceado, a carroceria arranhada e os pneus um poucos gastos, mas ainda ando, ando e evito todos os buracos que aquelas pessoas colocam em meus caminhos. Ando com o farol ligado em direção ao meu futuro apartamento, com a certeza de uma companhia no banco da carona. Ando correndo, respeitando os limites de velocidade e, por enquanto, o tempo é favorável e a estrada, livre.

  Muitas são as pessoas que me apontam o caminho a seguir, mas sei, que o carro delas também está perdido. Então, sigo apenas a intuição, pegando ruas sem sinalização, sem ajuda de guias ou dispositivos eletrônicos. No carro, como na vida, há de se apertar o acelerador com cuidado, há de se colocar o pé na embreagem no momento certo de trocar a marcha, e, evitar a “Ré” quando a rua é escura e o coração nos manda seguir em frente... Não tenha medo de brecar com força quando souber que a rua é sem saída. Buzine menos, dê mais passagem aos outros. Dê seta ao mudar de faixa, mas somente aos realmente amigos, pois muitos não gostam de ver quando há mudanças. Não reclame que seus pneus estão gastos, muitos já os tem furado há muito tempo e não podem mais rodar, mas lute sempre para comprar os melhores que existem e dirigir melhor.

  Hoje, com os olhos na estrada e a lua sobre minha carroceria, sigo a estrada ao som de músicas que marcaram meu passado. Sigo sonhando com o dia em que encontrarei a placa com um sorriso circular amarelo (  ) e a indicação de um bem vindo à cidade da felicidade.”

 



Escrito por Super-EU! às 13h08
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Mini-conto : - A criança e o sorvete.

“ ... Ao receber o sorvete das mãos do palhaço, a criança chorou. Ninguém entendeu quando ela abriu a boca, e fez o maior berreiro entre todas àquelas ramelentas crianças que estavam em sua volta, os pais a pegaram no colo e a afastaram do palhaço... Já ouviram palhaços causarem medo em crianças algumas vezes, o melhor era não aparecer com nenhuma dessas criaturas nas próximas festas de aniversário. A criança soluçava e começou a chorar mais. Só eu entendi aquela criança, ela era como eu agora. Não era medo de palhaço que ela sentia, era o conhecimento que aquele gostoso prazer do sorvete desapareceria ao final da sua lambuzada comilança. No meio daquelas pessoas, naquela festa infantil, muitos não perceberam essa cena comum na hora da distribuição de sorvetes. Comecei a divagar como ela seria quando crescesse, quantas vezes ainda choraria por causa disso.Minha mulher colocou a mão na minha perna enquanto conversava com outros convidados à mesa, isso me afastou um pouco da minha viagem nos pensamentos... Fitei o relógio na parede do Buffet... Eram 20 horas da noite, num domingo. Meu coração apertou. Engoli de uma vez só uma das coxinhas que passavam na bandeja do garçom. O Final de semana estava acabando, e meu humor não parava de diminuir. “

Escrito por Super-EU! às 20h00
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O Funeral

“ Tarde chuvosa de um dia atípico de verão... Super-EU! participava de um funeral um tanto quanto incomum em sua vida, tinha a sua frente dois corpos sendo sepultados ao mesmo tempo. Com um guarda-chuva grande, ele se escondia por debaixo de sua capa sentindo algumas fugídias gotas de chuva refestelar-se forte em partes descobertas do corpo ouvindo um padre caquético fazer orações em uma língua morta que  não faziam sentido pra ele, mas que produzia em seu espírito um arrepio gostoso ao ouví-lo.

  Prestou atenção em sua volta, só ele veio participar daquele funeral, queria que fosse assim de qualquer forma. Era exatamente como imaginava, dois caixões no fundo de uma mesma vala, um ao lado do outro, enxarcando-se em uma chuva purificadora. Ele por vezes reluzia com os insistentes relâmpagos que riscavam os céus produzindo um efeito aterrorizante e semelhante ao período duro da vida em que estava passando. O padre segurando uma grande bíblia profetizava vestindo uma roupa negra e um chapéu enorme que o protegia da chuva, via seus olhos, tinha os olhos frios e mansos de quem já se acostumara com aquele ritual. Imaginava que ele já presenciara tantos velórios que já não lhe restava surpresa alguma em qualquer reação que o público teria.

  Super-EU! estava chocado, eram duas criaturas jovens que estavam ali naquela caixa de madeira, uma criança e um adolescente que tiveram seus sonhos interrompidos e um sorriso raptados que nunca mais seriam resgatados. Lembrava bem da morte de cada um deles, a criança morreu quando jogou sua chupeta pela janela. Ainda lembrava-se dela exultante pelo corajoso ato, seus olhos brilhavam como fagulhas de fogo na noite, pulava heroicamente pela cozinha. Ela fora incentivada a fazer aquilo com a promessa de presentes futuros e ali começou a desvanecer, não percebera que, naquele momento seu grande conforto em momentos de angústia tinha acabado, que haveria menos tempo para dormir e menos brinquedos para brincar, e que, dali em diante sua morte seria silenciosa e solitária como a morte dos idosos em asilos da cidade... Nem ele mesmo percebeu quando a criança havia morrido, lembrava-se apenas dessa vaga passagem e de sua última aparição quando a viu chorosa descendo o elevador para uma escola ao qual não queria ir, mas fora obrigada pela mãe a comparecer. Com o adolescente não foi muito diferente, aahhh, quantos sonhos e coragem tinha aquele rapaz. Também tinha os olhos brilhantes como os da criança, mas tinha uma expectativa para o futuro que contagiava qualquer um, com ele dava a impressão que nada era impossível, que as noites tinham um brilho mágico e uma surpresa gostosa de esperar, com ele o escuro do cinema tinha um sabor malicioso das suas paixões adolescentes e que, apesar de suas já pesadas responsabilidades, tinha um grupo unido que fazia com que a vida fosse para ele um filme épico de efeitos especiais inacreditáveis. Lembrava-se bem quando prometera a si mesmo que, com o dinheiro que ganharia, reservaria tempo para viajar pelo menos uma vez por ano para conhecer lugares que nenhum familiar já tinha ido, e faria amizades, e teria experiências, e teriam tantos amores que fariam a vida valer a pena de verdade... Coitado. Sua ambição o matara antes mesmo de fazer sua segunda grande viagem, em sua afobação adolescente foi em busca de um adiantamento no período da vida, quis trilhar um caminho aquém do que seu tempo permitia e esquecera que pra uma fogueira, não era necessário somente a lenha certa, mas também um tempo suficiente para apreciá-la sentado. Deveria se poder sentir o calor das chamas e a beleza de sua cor avermelhada, ou senão tudo seria em vão.

  Por um momento, Super-EU! sentiu que não eram somente gotas de chuva que molhavam seu rosto, eram resquícios de algumas lágrimas que começaram a cair e ele apertou o coração para impedir que elas continuassem. Não era sempre que via seu próprio funeral, e não era sempre que ele resolvia enterrar dois períodos de seu passado de uma só vez. Aquilo era duro, mas sabia que não era tão duro quanto o que viria pela frente. “

 



Escrito por Super-EU! às 13h16
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A separação parte 1

 “ Parece que conforme o tempo passa, vamos deixando algumas coisas pelo caminho...

  Ainda lembrava da época em que tinha medo de dormir no escuro e havia ursos de pelúcia na cama para abraçar, a cama era grande e os dias de aula do ginásio eram como um intervalo de um filme bom na tv para se preparar a pipoca.

  Quando cresceu, deixou pra trás os ursos de pelúcia e foi obrigado a engolir sapos e a carregar responsabilidades... Sentiu um leve gelamento na garganta quando engoliu o primeiro e levou a vida adiante. Onde dava aquela montanha? repetia ele, sempre buscando o topo, deixando os momentos de prazeres da vida baixa para levar uma vida de rei quando chegasse lá.

  A TV, quando ligada, vomitava lixo em direção aos olhos e aos ouvidos, provou a primeira vez e sua língua rejeitou. Resolveu deixá-la desligada enquanto ainda era possível andar. Saiu pela cidade dos homens, tomando o cuidado de não fitá-los nos olhos, pois, a humanidade não gostava de ser encarada de frente. Passou incólume pelos vendedores de cartões de crédito e pelas igrejas  abarrotadas de fiéis.

  Em certo momento, não muito sério, aceitou um emprego, contribuindo, de bom grado para a sociedade economicamente ativa. Deixou pra trás o sonho de salvar vidas, de ser médico, para conseguir bens materiais, subir sua montanha particular e resolveu trabalhar com computadores. Gostou de ver documentos com firmas reconhecidas em seu nome... Resolveu colecioná-los como quando fazia com as figurinhas.

  Juntou documentos de carros, de apartamentos, de empresas, e, mesmo assim, sentiu-se só. Quando olhou da janela do apartamento, viu do outro lado da rua, o coração que havia esquecido por aí.

  Uma menina passou, abaixou-se para pegá-lo e ele correu para lá. Ela ofereceu o órgão pulsante de volta e ele não quis aceitar, disse que era de quem o encontrasse... E assim, se juntaram, trocaram sonhos e ilusões que levavam nos bolsos e moraram na mesma casa... Criou-se uma lenda de que a esperança no amor nasceu nesse dia, e ele comprou uma aliança bonita e reluzente de prata simbolizando tudo aquilo. Os anos enfim passaram rápidos como uma tarde alegre de infância na casa da avó.

  Num belo dia, entre a primavera e o verão, quando as folhas das árvores e o vento jogam bola juntos no campo de futebol dos homens, o anel desapereceu… Evaporou-se como os sonhos evaporam quando o despertador toca.

  Ao notar o sumiço, ele quis explicar a ela o que aconteceu e uma pequena rachadura no coração de ambos apareceu. O tempo lhe pareceu mais frio àquela hora do dia e, ao invés de ambos se abraçarem, pegaram um casaco de lã nos armários e sairam para trabalhar e o relacionamento não foi mais o mesmo.

  Nesse dia, não foi só o anel que sumiu, alguma coisa a mais também estava faltando, talvez a sinceridade não esteve presente nquando precisaram ou, talvez o que faltou mesmo, foi um pouco de coragem para admitir a tristeza por aquele momento de perda.

  À noite, sozinhos em suas camas, não tiveram coragem de se olhar nos olhos, dormiram virados de costas um pro outro, e, entre o espaço vazio entre eles nasceu a desconfiança, o medo da solidão, e os monstros de sentimentos ruins que permeiam nossa angústia.

  Dos dias que se seguiram, entre copos de cerveja e jantares onde o silêncio reinava, a TV voltou a ser ligada para novamente encher os pensamentos de lixo. O descontentamento bateu à porta e calou o amor que costumava morar na casa.

  Um dia, entre o barulho da louça do jantar sendo lavada e o comercial das Casas Bahia na TV, ela o surpreendeu com a frase:

   - Precisamos conversar seriamente.

  E nisso, toda a verdade guardada e todos os monstros dos armários apareceram na cozinha, e ele, sabendo que esse dia chegaria consentiu a separação com um aceno de cabeça.

  Ela pegou uma bolsa colorida, tomou um copo de água para molhar a garganta e o coração que estavam secos e se foi. “



Escrito por Super-EU! às 16h32
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Mini-conto da garrafa

“ ...  Quando se chega ao topo, o único caminho a seguir é para baixo...

    Ouviu-se um espampido seco e muitas palmas e risadas pelo ar.

    A rolha de champagne foi fotografada no momento em que ela voava da garrafa. E a garrafa foi enchendo generosa cada um dos copos de cristal da festa. Ninguém mais viu a rolha quando ela caiu... Solitária, ela rolou embaixo da mesa, amuada, triste por saber que o momento mais especial da sua vida passara rápido como um raio e se desvaneceu em lembranças na máquina fotográfica de um desconhecido. No dia seguinte a empregada varreu as coisas, jogou-a junto com os restos de comida e ali parou, saudosa, lembrando-se dos bons tempos em que vivera com sua garrafa, só as duas, juntas como se nem o próprio ar pudesse separá-las e ficassem juntas para sempre. “  



Escrito por Super-EU! às 11h07
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A Separação , continua.

“ Quando os pés da menina cruzou a linha tênue que separava o namoro da despedida, os olhos piscaram surpresos. A imagem da menina se afastando com uma bolsa colorida pendurada no ombro e o sol as suas costas pareciam uma pintura de arte barroca na parede da igreja.

   O Estalar de olhos e a imagem da ida entorpeceram a mente, todo o sangue do corpo correu devagar. Num esgar de dor súbito, ele simulou um gemido, mas da sua boca nenhum som ousou flutuar no ar. Estava trêmulo como se fosse o próprio copo de cachaça na mão de um adolescente. Ela cruzou a esquina e ele não ousou cruzar o portão, segurava a chave com força na mão como se aquilo fosse evitar que o céu desabasse sobre os seus ombros.

  Ele ficou ali parado até que tivesse a certeza que ela não estava mais ali, fechou o portão e dirigiu-se para o interior da casa.

  A ida da menina fez sua vida virar do avesso, suas calças não cabiam mais na cintura e a barra era pisada pelos pés descalços, parecia que encolhera. Seus olhos mudaram, ficaram mais nítidos, impressão sua ou a foto do porta-retratos estava mais cinza e escura do que de costume?

  A janela agora se abria generosa para as encostas dos prédios à volta, coisa que ela nunca gostou que fizesse e por isso, punia a janela com cadeados e persianas. Um ar de coisa nova invadiu o apartamento enchendo suas narinas de cheiro de novidade.

 Do armário, ainda restavam algumas roupas e sapatos que ela viria buscar depois, tinha a impressão estranha que sempre que ele abria as portas daquele armário, seus paletós tinham acabado de brigar com os vestidos dela e que por isso mantinham-se sempre um pouco longe um do outro... Para ele, a música do Chico nunca tivera muito sentido, ele nunca permitiu que seus sapatos pissassem nos delas: - Depois quem é que vai limpar? ... Ele perguntava, com ar de cobrança de uma obrigação que ela nunca disse que era dele.

  Na primeira noite, a coragem de encarar a cama de casal vazia ainda era pouca, por isso permitiu-se demorar mais na sala com a televisão ligada. Teve vontade de montar uma cabana, como quando acampava na sala na época de criança... Pegou alguns cabos de vassouras um cobertor de casal e um pequeno colchão e lençóis para se acomodar, porém, deitou-se no sofá e ali ficou até que seus olhos ficassem pesados e ele embarcasse no sono com o controle remoto se atirando ao chão enquanto o corpo se acomodava relaxado no sofá.

  Acordou com o som do canal de notícias lhe dizendo Bom Dia, levantou-se meio babado caminhando pela sala e com a luz da manhã viu a cozinha sem nada. O Leite que não tinha sido esquentado, o café que não tinha sido feito, a mesa não posta. Estranhou, eles não eram feitos sozinhos?

  Resolveu tomar café na padaria e ir ao trabalho direto.

  O primeiro dia no trabalho sozinho foi tão aterrorizante quanto a primeira vez que ele foi pra escola. Tinha a impressão que o céu desabaria e que do café amargo saísse uma mão que lhe agarraria o pescoço.

  Dos objetos à volta, todos tinham uma ligação com ele, todos lembravam um ponto da vida que tinha passado, parecia que tinha mil anos de idade. Do som do rádio, a canção brega do amor que passou e o guarda de amarelo do trânsito fizeram o sinal para que a vida seguisse.

  Coragem. Coragem. Era o que repetia pra si mesmo.

  Ao chegar em casa, a impressão de que ela estaria lá dentro o invadiu,o coração disparou antes que ele cruzasse a porta e foi procurando por todos os cômodos com a esperança de que ela tinha voltado, e, com a decepção da descoberta, foi se acalmando, se acalmando, até que batesse baixinho sem que ninguém mais ouvisse. Jogou a maleta ao canto, tirou os sapatos e, implorando ao rádio, pediu que tocasse uma música lenta que o embalasse na angústia de criança envolvente do momento. Tudo estava um pouco diferente.

  Podia sentir as notas musicais que saíam do rádio e cada partícula de pó que voava pelo apartamento brilhava tanto quanto purpurinas caindo do teto, sem perceber, começou a ensaiar os passos de dança que há muito tempo não fazia. Ao som de um bolero lento a sala girou em torno dele tantas vezes que seus olhos somente pararam quando percebeu a presença de alguém na porta entreaberta.

  Seus braços desabaram. Era ela que estava na porta, com uma mão segurava a mala e a outra parecia segurar o queixo para que o mesmo não caísse.

  - Então quer dizer que agora você dança? – perguntou ela com desdém, e sem dizer mais palavras, foi adentrando no apartamento e se dirigindo ao quarto.

  Ele não a seguiu, não iria aguentar vê-la recolhendo suas coisas ( nossas coisas como costumava dizer em épocas de um romance cafona ) e separando tudo o que juntaram para que cada um seguisse seu ritmo. De repente, ela ouviu um grito, e, correndo, ouviu ela dizer: - Como você é ridículo!

  Parou à porta do quarto com o álbum de fotografias jogado na cama e, com cada foto tirada dos dois marcada com um coração e a frase: - Juntos somos imbatíveis.

  - Eu não fiz isso – ele tentou explicar, mas ela não quis ouvir, jogou o resto das roupas que cismavam em se agarrar às deles numa mala ( se apurasse os ouvidos, ainda ouveria as lamúrias do vestido dela e de seu paletó em despedida ), fechou o ziper com um barulho seco e se dirigiu furiosa a saída.

  - Ah não! Ah não! Agora você me tranca aqui é isso? O que você quer? Me diz? – gritou ela, jogando a mala ao chão, vencida.

   Estranhamente, a porta do apartamento havia sido trancada e a chave já não mais pendia na fechadura. Havia desaparecido ou se escondido como costumava explicar à sua mãe quando era criança.

  Subitamente, voltou às recordações na infância, ouvindo sua mão dizer: - Então quer dizer que as mochilas e as chaves de casa se escondem é? – perguntava sua mãe seriamente a ele, e ele não sabia explicar o que acontecera.

  Numa dessas noites de calor, onde todos os poros do seu corpo parecem estar ativos, e sua audição aumenta, sozinho no quarto, ele notou uma criaturazinha de chapéu vermelho correr por detrás do armário, e com a curiosidade gigante que tinha de criança tentou ver por detrás do móvel onde ela tinha ido. Estava escuro, não enxergava coisa alguma, mas corajoso, enfiou as mãos pela fresta do armário e da parede, e , de lá, retirou as chaves do carro que haviam sido perdidas.

  Quando olhou estupefato para elas, meio empoieirada em suas mãos, teve a certeza de que ainda ouviu uma risadinha minúscula saindo da escuridão da fresta do armário. Assustado, correu para o quarto dos pais, a acordá-los e a explicar, com a afobação da criança quando consegue ver algo mágico diante dos olhos.

  É claro que os pais não acreditaram nele, e creditaram a culpa ao filho, que escondia as coisas e depois não os deixavam dormir.

  Ele aprendeu a conviver com isso, com coisas sumindo e aparecendo em lugares mais inexplicáveis possíveis. Ouvia risadas, via criaturas pequeninas correndo por entre os móveis, fazendo travessuras com ele, as vezes, até o empurrando para que fizesse algo. Por toda a infância e a adolescência, em horas impróprias e mágicas da vida ele tinha a certeza de não estar sozinho, na primeira volta de bicicleta, na primeira dança com uma menina, no primeiro beijo, no primeiro “não” de amor depois de uma declaração apaixonada, na primeira noite de sono longe dos pais, eles estavam lá.

  Seus pais ficaram preocupados, encaminharam-no ao psicólogo, e... com ele receitando remédios horríveis, percebeu que o melhor era ignorar as criaturas e fingí-las que não existiam...
 
  Com o passar dos anos, elas ficaram chateadas, passaram a aparecer cada vez menos, até que pararam e ele não conseguiu ver nada mais do que a realidade diante dos olhos. Até agora.

  Um formigamento estranho no corpo o atingiu, quando, vendo a menina de frente pra ele furiosa, percebeu atrás dela, no vão da porta do quarto, a mesma criaturazinha que o atazanava na infância sorrindo.

  Num piscar de olhos, a criatura deu um pulo, virou de costas, e correu para o quarto. Ele correu atrás, esbarrando na namorada. Ainda deu tempo de ver, ao chegar no quarto, a criatura se esconder embaixo da cama por detrás da caixa de fotos que eles guardavam ali.

  A menina, sem entender nada, ainda indagou: - Mas o que está acontecendo, pirou de vez?

  Ele se meteu atrás dela, retirou a caixa de fotos debaixo da cama, e, por detrás, encontrou além da chave, a aliança de compromisso que ele tinha perdido quando ainda namoravam.

  Aquilo era um símbolo de união entre os dois, que nunca tinha sido reatado, e, agora, magicamente, ele aparecia ali. Diante dos olhos e do coração. "



Escrito por Super-EU! às 16h54
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A queda do retrovisor.

“Da infância ele aproveitou pouco. Desde pequeno sua mãe o obrigou a trabalhar. Ainda no colo, ela o levava aos faróis ensinando-o a pedir dinheiro enquanto os carros rugiam com seus motores. Nunca gostou de carros. Eram como casas de luxo sobre rodas que ele nunca iria ter. Fora pouco as alegrias da vida, no barraco, uma bola de capotão e uma bicicleta velha o acompanhavam e das duas rodas ele aprendeu a tirar o proveito para ir aonde precisava.

  Cresceu num mundo hostil e, dos rostos hostís saíam sempre palavras de que nunca deixaria de ser nada mais além de um mulato pobre no bar com uma cerveja na mesa e uma conta pra pagar no bolso.

  Um dia quando era ainda menino, caminhando a pé pela Avenida, viu um homem passar voando por entre os carros em sua motocicleta, tinha o ar feroz de alguém que caminha por entre leões e, com sua buzina, chicoteia as feras para que elas fiquem em seus devidos lugares e os obedeça. Aquilo era magnífico, o ronco do motor foi como o hino de convocação de um exército. Era isso o que desejou ser desde então, motoboy.

   Quando o homem decide trilhar um caminho, não há nada que o destino possa fazer para impedí-lo. Há muito custo conseguiu com a ajuda dos chocolates vendidos nos trens, comprar uma velha moto à prestações para trabalhar numa firma de entrega de documentos. Viu sua vida ganhar uma nova dimensão, duas rodas e uma alta velocidade nas marginais.

   Das ruas de asfalto ele era dono, enquanto todos os carros paravam enfileirados como elefantes em trilhas para beber água, ele passava voando baixo por entre eles, com buzinas atordoantes e uma majestosa autoconfiança que faziam “aqueles de quatro rodas” se morderem de inveja. Quando o farol abria e a corrida silenciosa tinha ínicio, ele saía sempre na frente, deixando os de 4 rodas respirar a poluição que saía de seu escapamento. A vida no tráfego era uma guerra silenciosa entre aqueles de quatro rodas e os de duas. Um não gostava do outro, um tinha medo do outro, um lançava sobre o outro sempre as mais baixas ofensas ao vento e, por entre mudanças de faixas e setas ligadas, pragas e maldições cosmopolitas se estapeavam no ar enquanto a vida seguia e o tempo passava silenciando a todos.

  Um dia, tomou uma fechada de um carro enquanto cruzava o faról, desequilibrara e bateu a moto na sarjeta da rua sendo lançado na calçada enquanto via seu agressor de quatro rodas virar a esquina sem dar pouco por ele. Seria apenas mais um momento de ódio e gritaria se sua mão não tivesse doendo tanto com a queda. Teve que ir ao médico ajudado por outros motoqueiros que pararam para prestar socorro ao colega caído.

  No hospital, aos olhos do indiferente médico, fora dirigido a ele à sentença por sua queda: - Dedo quebrado e 2 meses sem poder andar de moto.

  Jurou vingança, e, um pouco antes do final da sentença, conseguiu recuperar-se e voltou às ruas para entregar os documentos dos engravatados das multinacionais.

  Num dia bonito, de céu claro, ao final do expediente, com apenas um documento a mais faltando para ser entregue e muitas mulheres de roupas curtas passeando pelas calçadas, viu um carro mudando de faixa, seta ligada à sua frente. Seus olhos brilharam. A fera saiu do banquinho do domador mesmo com as chicotadas da buzina que ele impunhava e isso devia ser punido. Acelerou, transformando-se num míssil humano lançado em direção ao carro, levantou um pouco o pé de sua moto, e numa desviada brusca e um golpe seco, puniu a criatura por sua ousadia: - Quebrou o retrovisor da fera indomada.

  Olhou para trás para conferir sua grande obra, e ela estava perfeita. O Retrovisor se despedaçara e o vidro pulou para frente como um palhaço em um brinquedo de molas, o motorista olhava ao mesmo tempo estupefato e raivoso, logo explodiria de raiva e tentaria alcançá-lo numa corrida desleal por entre o congestionamento. Faltava só mais um toque final para dar um ótimo desfecho à sua arte de gênio. Olhando para frente, levantou o braço esquerdo, e ergueu o dedo do meio que havia sido quebrado meses antes.

  Sua vingança estava cumprida. “



Escrito por Super-EU! às 12h02
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A morte do Homem do Cone de Amendoin

“ O homem que vendia cones de amendoin morreu. Foi atropelado numa quinta-feira de calor e movimento, entre a junção da Av. dos Bandeirantes com a Marginal Tietê, no meio da avenida. Ele estava lá, pendurado na janela de um caminhão-cegonha que andava vagarosamente enquanto o motorista contava as moedas para o amendoin quando desceu, desviou de 2 motoqueiros que passavam por entre as filas de carros parados e não se deu conta de que um terceiro estava vindo. O homem do amendoim conseguiu ainda ver a própria face horrorizada no capacete negro do motoqueiro que o atropelava com buzinantes sons de aviso e o grito rouco da mulher gorda que vendia refrigerantes no acostamento:

  - Tião ! CUIDADO!

  Então foi amendoin pra todo lado, uma pequena chuva de grãos em cima de caminhões velhos e de carros importados.

  O Motoqueiro caiu também, voou sem asas no meio do corredor por alguns metros, deu algumas cambalhotas no chão de asfalto da Marginal e ali ficou, imóvel... O Tião foi atirado de lado. Em cima de um carro popular antigo que passava, foi atingido na cabeça e nos braços... Um risco vermelho sujou o para-brisa do carro e ele morreu. Uma morte besta para uma vida besta.

  Com ele morreu os xingamentos dos senhores dos carros que desviavam dele na marginal, a fumaça preta que seu braseiro exalava, os cachorros que sua presença invocava, morreu uma vida marginal. 

  Seu maior feito em vida foi ter causado um congestionamento monstro na cidade minutos antes de morrer enquanto agonizava no chão que queimava feito brasa no asfalto... Seus amigos dos barracos, fizeram uma comovente e raivosa manifestação, queimando pneus e lixo na rua e fechando a pista local até que a polícia aparecesse e convencesse com palavras carinhosas ou recursos mais eficientes que liberassem a rodovia. Ele conseguiu fazer com que o récorde de congestionamento do Ano fosse atingido: 180 kilometros de vias paradas.

  Ele não tinha documentos, então foi enviado ao hospital como indigente, e, de lá, sem maiores atenções, serviu como corpo de estudos para o curso de medicina da Universidade da Cidade. Hoje, ele foi promovido, faz muito médico aprendiz mais sábio, deixando entrever, gentilmente suas entranhas devastadas de cachaça e cigarros baratos. “



Escrito por Super-EU! às 11h52
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O Hospício

“ Mais do que a tristeza, o desânimo em aceitar que as coisas são ruins porque não há outro jeito faz tudo mais difícil. 

  Então é isso, para a minha aposentadoria vou querer um hospício.

  Um sanatório com piscina para fisioterapia,

  Uma equipe 24 horas na enfermaria,

  Para meus delírios ocasionais tratar,

  Alguém que me dê banho quando meu derrame chegar

  E quaisquer males do estresse que porventura ele venha a me causar

  Quero uma sopa bem quentinha para os meus dias de frio.

 

  Imagino eu numa cama, com roupão de banho, olhando pro vazio.

  A enfermeira velha me molhando a boca de sopa e,

  Como quem não quer nada, pegando um guardanapo e limpando a minha baba.

  Que, como algumas lágrimas não vão parar de cair.

  Quero quartos com corrimão para quando minha labirintite vir,

  Banheiros com piso antiderrapante para não correr o risco de me matar,

  Enquando estiver me despindo para meu banho tomar.

  Quero muitos cobertores para o frio da alma,

  Um calmante e um copo dágua pra chamar a calma.

  E quando todos os parentes e amigos me tiverem esquecido,

  E minha amada que me acompanhou pela vida tiver ido embora,

  Quero um hospício grande para gastar todo esse dinheiro que junto agora.

 

  Daqueles que a gente olha e não parece “casa de louco”

  Quero um lugar que pareça uma pousada de campo, pelo menos um pouco.

  Com um pequeno parque ao fundo, para que eu olhe para as árvores

  E pense que ali é onde acaba o mundo, naquele portão

 

  Quero um lugar que tenha uma sala grande e uma televisão.

  Onde a enfermeira deixe no canal de desenhos pros velhos assistirem

  E quando o olho começar a fechar e chegar o tédio,

  Quero um lugar que a enfermeira grite: - É hora do remédio !

  E, nesse momento se cure a dor que eu sentia por estar ali,

  Um remédio anti-depressivo que me faça rir

  E virar e olhar para o sol que passa

  Através das grades da vidraça

  E no chão, ver os quadrados bonitos que se formarão.

 

  Por fim, quero um hospício caro e chique.

  Pois acredite! Uma das coisas que eu não abro mão

  É do conforto e de pensar com a razão. “

 



Escrito por Super-EU! às 11h48
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Trânsito na Marginal

Tempos de inspirações curtas.... Também, com esse trânsito todo! 

“ Trânsito parado. Tempo nublado. Final de sexta-feira na volta de casa. O Caos de sempre.

  O rádio do carro cuspia propagandas em seu rosto, e, por causa do barulho do lado de fora ele era obrigado a fechar o vidro e ligar o ar-condicionado.

  - Preciso trocar esse filtro de ar.

  Ar-condicionados sempre o deixavam com a garganta irritada, sempre preferiu o ar natural e o vento no rosto, aquela poluição e a falta de revisão no carro fazia-o tossir a intervalos regulares.

  Pensava na vida enquanto o cotovelo procurava um lugar confortável pra se apoiar no vidro da janela:

  - Como era triste a vida humana.

  O trânsito para ele era um grande rio de águas vermelhas piscantes que corriam para lugares desconhecidos, os carros no tráfego brigavam por espaços ínfimos se atirando uns na frente dos outros conseguindo posições à frente como numa poly-position de tartarugas. Estava naquele anda-e-pára há quase 40 minutos sem ter para onde correr e, pelo jeito, hoje iria demorar pra voltar pra casa. O que aconteceria com ele se, nesse momento, não houvesse mais espaço para os carros andarem? Se, no final daquele caminho, um carro dependesse do outro para andar que dependia, do primeiro? Morreria ali, até a gasolina acabar?

Tentou deixar de pensar naquilo, pensar demais no trânsito sempre o deprimia, por isso levava no carro um livro de cabeceira qualquer que o levasse daquele inferno urbano a que todos os dias era submetido.

Então notou pequeno espaço á esquerda. Ultrapassou. Espaço a direita. Jogou o carro em cima de um velho Corsa que estava distraído. Ultrapassou. Ganhava posições e sentia com isso um pequeno prazer ao conseguir ultrapassar alguns carros deixando-os para trás, o que, não durava muito, pois, minutos depois, ia para uma fila que andava menos e lá estavam os carros ultrapassados novamente ao seu lado.

Estava começando a perder a paciência, logo, aquele pequeno homem no carro se transformaria num idiota insano que buzinava para todos e ameaçava jogar o carro em cima dos motoqueiros que passavam por causa de ciúmes.

Não enxergou o céu que se unia com o rio poluído lá de cima da ponte, nem tampouco as folhas secas das árvores que brincavam de pique por entre os carros anunciando a chuva que viria. Não viu o casal apaixonado se beijando no carro de trás que perdia posições pela sua indiferença ao transito, nem a beleza simples da vendedora de água mineral que se arriscava no meio dos carros e caminhões desviando de motocicletas.

Não viu a vida passar enquanto o carro e o tempo parava. Só via a luzinha do carro vermelho, acendendo, apagando, acendendo, apagando, num sinal de alerta de perigo para a sua vida que se apagava no meio da Marginal. “



Escrito por Super-EU! às 19h42
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A peça em cartaz - parte 1

“- Tenho um filho artista – anunciou a mãe orgulhosa na mesa de jantar, quando a família se reunia num final de semana.  – Ele vai estar em cartaz essa semana, por que não combinamos todos de vê-lo?

As tias, primos, primas e avós ficaram entusiasmados, todos concordaram em uníssomo dar o apoio necessário ao parente-ator-iniciante que tinha sua primeira peça em cartaz.

- Vou ter o orgulho de dizer: - Eu fui na primeira peça do futuro Paulo Autran! – declarou o tio, com o copo ao ar e meio alto com o Wiskye servido a ele hora antes.

O pai não procurou se pronunciar, essas coisas modernas ele nunca entendeu direito, achava meio esquisito, um atentado a própria inteligência que outros tinham a coragem de chamar de arte. O Filho fazia dança contemporânea, ninguém sabia ao certo o que significava, mas como apoio e, pelo amor paternal, não ousou dizer palavra até depois da peça.

No dia combinado, todos se encontraram na casa do futuro Pai-do-ator-famoso-global que estaria por vir. As tias vieram perfumadas, maquiadas, com roupas elegantes de “vou a um concerto de orquestra sinfônica”. Primos trouxeram suas namoradas, as primas solteiras declararam animadas umas às outras: - Quem sabe não tenho a chance de conhecer o camarim de um amigo dele? Artistas normalmente são gatinhos!.

E, como convém às grandes famílias, partiram atrasadas para a peça, em um passeio preenchido por fofocas de parentes de fora, piadinhas de atores de teatros e uma expectativa voraz crescente que enchia o carro de sorrisos toda vez que o nome do filho era pronunciado.

Enfim chegaram ao Teatro, enfretaram guardadores de carros vorazes, parentes de outros atores que se acotovelavam na porta e uma espera de mais de meia hora de atraso como maratonistas experientes que pulam os obstáculos da prova. A mãe permitiu-se pipoca doce e o pai fumar seu último cigarro antes de entrar no salão. Se acomodaram nas poltronas.

A 3. fila lotou de parentes sorridentes que continuavam a conversar acaloradamente.

Soou o primeiro toque.

A expectativa na platéia era palpável como o cheiro do algodão doce num parque de diversões.

– O que quer dizer esse barulho? – declarou o tio do interior, meio desacostumado com os costumes do espetáculo.

- Fique quieto, você não entende nada, vai começar o show. – declarou a esposa, inconformada com a ignorância do marido.

A avó do futuro ator não se incomodou com a algazarra da família, estava feliz simplesmente por ter saído de casa, fazia décadas que não entrava no teatro. – Desde quando eu e o Berto nos casamos nunca mais fui em um – declarava ela à todos, contando em seguida uma história que ela já tinha contado milhões de vezes mas que todos ouviam por respeito ao idoso.

Segundo Toque.

Todos se calaram, a prima levantou rapidamente para cuspir o chiclete e ir a um banheiro para uma última olhada no espelho. A mãe limpava as mãos engorduradas de doce num lenço e já imaginava vendo o filho na novela das 8. As luzes estavam ficando mais fracas.

Terceiro Toque.

Por fim, a escuridão foi total, ouviam-se tossidas e ajeitadas cheias de expectativa nas cadeiras.

 - Vai começar! Vai começar! – declarou a mãe, enquanto a prima voltava correndo do banheiro atrapalhando o resto da família. Pés e joelhos foram movimentados. Sentou-se.

Triunfal, a cortina se abriu. Era um palco vazio, folhas secas espalhadas pelo chão enfeitavam o ambiente ali em cima.

Um dos tios, de idade mais avançava espremeu o olho tentando notar, se , a visão já gasta pelo tempo não tinha deixado passar alguma coisa.



Escrito por Super-EU! às 11h14
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A peça em cartaz - parte 2

" Começou-se a ouvir batidas de tambor.

O Filho apareceu. Vestido de índio. E pulando como um macaco bêbado numa festa na floresta.

- Psssssss – o primo se conteve, quase explodindo de gargalhadas na platéia, recebendo uma cotovelada de leve da namorada antes que ele fizesse barulho.

Todos arregalaram os olhos. Das pessoas, nem a respiração podia ser ouvida.

Mais batidas de tambor, o filho, ainda pulando, começou a se jogar no meio das folhas secas do palco e, levantando os braços pra cima, jogava as folhas para todos os lados como um hipópotamo tomando banho num lago. Rolou no chão, 1, 2, 3 vezes...

A avó pensou incomodada da platéia: - Ai meu deus! Dor de barriga justo nessa hora! Aguenta meu neto, aguenta! – torceu incomodada e ingênua.

Os tambores aumentaram de intensidade e de velocidade.

Uma das tias tirou o casaco e o colocou no colo, a concentração era tamanha que estava dando calor.

De súbito, em cima do palco, apareceu um outro ator. Vestido de Totem indígena, sendo arrastado por duas mulheres astecas como se fosse uma marionete de cordas arrebentadas.

As astecas deixou o Homem-Totem no meio do palco. Quando o filho gritou:

- Por quê, Civilização Moderna, me incomoda com suas crenças??? Não deverei eu, tomar água da fonte e da cachoeira e simplesmente acreditar??? – declarou o filho, entusiasmado enquanto rodeava as 2 astecas e o homem totem.

O coração das tias disparou, nunca tinha ouvido a voz do sobrinho tão alta... Tão... tão... tão... Confiante!

O pai apenas acenou com a cabeça em aprovação. Por dentro gritava de emoção como se o filho tivesse mandado a bola pra fora do estádio em uma partida de beisebol.

No palco, as duas astecas algemadaram o filho ator, e ele, com olhos lacrimejantes anunciou: - Já estava preso sem as algemas, estava nú mesmo com essas roupas.

Todos começaram a dançar novamente, o homem-totem ensaiava alguns passos desengonçados pelo palco, falando como um pastor de igreja batista enquanto as astecas, com passos ensaiados davam voltas em torno do filho e movimentavam pernas e braços como uma Madona da América Latina.

Desce a cortina.

Fim do primeiro ato.



Escrito por Super-EU! às 11h14
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