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Histórias de Clarice, parte 2
" ... E enquanto enterrava pouco a pouco a sua triste boneca, Clarisse admirava seu pequeno corpinho meio encoberto de terra totalmente alheia ao que seu coração alertava, mas fazia aquilo, não porque não gostava da boneca que tinha, e sim para evitar que ela no futuro a abandonasse, aquela pequena boneca de pano era sua pequena filhinha e, para evitar que ela crescesse se revoltasse contra sua mãe, ela tomava este gesto preventivo. E... Quando jogou o ultimo montinho de terra que cobriu por completo sua pequena boneca, Clarisse sentiu um vazio imenso no coração e a boca seca, afinal, o mundo era assim mesmo cruel, cinza, triste, incompleto, pois que a mente humana era malvada demais, ela já não poderia fazer mais nada a não ser seguir o curso do rio que desaguava num horrível desfiladeiro de tristeza e solidão. Jogou então sua pá de lado, caminhando para fora do parque e andou léguas por becos escuros, por frestas apertadas e por corpos mutilados pela vergonha. Encontrou então ao final de um beco, uma criatura amarrada por correntes com a cabeça baixa, e que de tão ferida, fazia um esforço imenso apenas para respirar. Caminhou em direção a ela, meio receosa, e, deixando-se coberta por uma nesga de sombra vindo de um dos edificios de altura infinita, assustou-se e gritou: - Super-EU!!! . A criatura então com grande dificuldade levantou a cabeça e sussurrando o nome de Clarice demonstrou com o semblante o reconhecimento da pessoa que ele amava, já caindo desacordado em seguida, amparado apenas pelas correntes. Clarice então com expresso desespero, correu em direção ao Super-EU! para livrá-lo das correntes e o amparou em seus braços.
- O que fazes aqui meu amor, neste lado tão escuro e sombrio? - Perguntou ela, com lágrimas nos olhos.
Super-EU! então abriu os olhos, e sussurrando, disse que fora ela que o mandara ali, que, quando ela terminara o namoro , negando o sentimento que lhe preenchia, ela, sem querer o amarrou a correntes para que ele nunca mais visse a a luz do sol, ou aparecesse novamente em sua vida...
ELa se recusou a acreditar no que ele tinha lhe dito, ela jamais fez mal a qualquer ser humano, então como iria machucar a pessoa que ela tanto amava e que se separou dela justamente por isso? .
- Clarice, você tomou as pilulas, você está agora presa entre o seu coração e o mundo imaginário que você sempre se refugiou, você é o barco preso dentro da sua própria garrafa, você é o pássaro suicida que construiu sua própria gaiola e destruiu a chave que dava para fora, você... argh... - Super-EU! fora interrompido pela sensação de sufocamento provocado pelas mãos de Clarice em volta do seu pescoço, que o apertava cada vez mais..."
Escrito por Super-EU! às 07h48
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Histórias de Clarice, parte 1
" ... Ahhhhhh, como era bonita a nesga de sol que vinha da janela de seu quarto na direção de seu braço cheio de feridas... - pensou Clarice, com lágrimas nos olhos. Era bonito ver que a escuridão que jazia em seu coração não assombrava a luz que invadia sorrateira a janela daquele recinto. Ela estava sozinha, havia dias e ninguém notou... Aos poucos, deixou a vida lá fora e foi voltando-se somente para si, pois ela gostava de ter controle sobre todas as coisas e o mundo era grande demais pra ela. Sim, era grande demais, ela não suportava mais ver alguém em condições melhores que ela, nem ver que o pouco que ela tinha era muito e que muitos em suas condições estariam satisfeitos, mesmo ela que tinha alcançado tão pouco. E então, ela deixou a vida para os outros, parou de sair... O telefone tocou no começo, mas ela não atendeu, e aos poucos, o telefone mesmo parece ter se cansado de tocar e parou... Dormiu o sono da eternidade e o pó veio cobrir a tudo e a todos os móveis, deixando o ambiente triste e sombrio. Nem os pássaros que costumavam acordá-la com sua cantoria não pousaram mais na sua janela, as pessoas que passavam em frente ao seu portão, vendo aquela casa tão mal cuidada, com o mato e as ervas daninhas a crescerem frenéticas pelo quintal da frente pensavam estar abandonada... E estava mesmo, ela havia abandonado sua casa, seu emprego e estava prestes a abandonar seu corpo... E agora, o sol aparecia ternamente quente ao seu encontro... Ternamente claro... Ela então olhou para o pote com pilulas e numa unica virada deixou que dezenas de pequenas capsulas entrassem pela sua boca e invadissem sua corrente sanguínea... Cápsulas para a solidão, pensou enquanto deitava a cabeça em seu travesseiro e observava as cores que eram refletidas pelo vidro da janela no teto de seu quarto.
Aos poucos, seus olhos foram se fechando, fechando e ... Quando abriu, viu que estava em frente a casa em que ela morava quando criança, viu que agora, já não lhe cabiam mais responsabilidades e a boneca que ela tanto gostava estava lá no quintal a sua espera, mas havia algo errado, a boneca não tinha mais o sorriso bonito que ela tanto lembrava, ela tinha um olhar triste, assustado e uma boca que precedia um choro cheio de dor e angustia. E os brinquedos ? Os brinquedos não eram mais tão coloridos como antes, a balança estava quebrada e o gira-gira já não girava mais, ficou parado no tempo, como seu coração havia ficado parado no passado... Ela pegou sua boneca do chão, foi até um sujo cercado de areia em que ela costumava brincar... Cercado este que agora não mais continha a areia fininha que tantos seus pés gostavam de pisar... Era uma areia grossa, ardida, de uma aspereza a que suas mãos haviam se acostumado a tocar com a sujeira de seu dia-a-dia... Pegou uma pá, grande como a pá de um pedreiro, jogou sua boneca de lado, e começou a cavar, cavar e cavar, até que o buraco ficasse fundo suficiente para que sua boneca não mais a ferisse com aquele olhar triste que a machucava..."
Escrito por Super-EU! às 07h46
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