 |
A viseira de Clarice, parte 1.
" ... Clarice estava divina. Divinamente linda àquela hora do dia, puxava para traz os cabelos com a intenção de fazer um pequeno rabo de cavalo e abria a gaveta da cômoda tirando de dentro dela um reluzente colar de brilhantes que guardava para aquelas ocasiões especiais. Menina jovem, de classe média-alta, vivia a se admirar no espelho e olhava agora a sua própria imagem colocando em si o colar de brilhantes. Usava um negro vestido que lhe realçava as curvas do corpo e calçava um alto sapato de salto para parecer maior do que realmente era. A beleza para ela, era por vezes uma forma de arte, toda vez em que se entretia a se parecer bonita era como fazer da folha de papel um avião de brinquedo, era uma atividade divertida e um passatempo saboroso. E agora, retocava sua maquiagem, batons que realçavam seus finos lábios, produtos que escondiam imperfeições, lápis de beleza que mexiam com os olhos. Ajeitou os seios dentro do vestido com o cuidado de fazer com que, aos olhos dos outros, parecessem maiores e mais bonitos do que realmente eram. Foi até uma prateleira de perfumes, pegou um pequeno vidro e derramou em si o "cheiro do desejo" na nuca, um pouco em cada braço e algumas gotas no peito. Agora sim, estava impecável! Feliz com a imagem refletida no espelho. Faltava apenas um último acessório e olhou para ele: - Uma Viseira . Ela odiava aquele objeto, por vezes jogava-o debaixo de sua cama para esquecê-lo, mas no dia seguinte, lá estava ele em cima da cômoda novamente colocada com zelo pela mãe. Num país pobre e miserável como o dela, ela era obrigada a usar, por conselho dos pais e de seu grupo de amigos, algo que lhe limitasse a visão, não deixasse ver as coisas muito além da janela do quarto de seu prédio ou fora do seu carro blindado. A viseira, era ao mesmo tempo um limitador de visão e uma forma de proteger sua alegria. Aproximando-se do objeto pegou-o entre suas mãos e passou-o em volta da cabeça. Olhou de volta para o espelho, pronto, com aquilo a única coisa que poderia olhar era para frente, não conseguia enxergar seu quarto por inteiro apenas Clarice no espelho, linda e bela Clarice. Mas, estranhamente, hoje ela não iria tampar a visão, hoje ela iria enxergar as coisas como realmente eram, hoje, ela iria olhar para sua própria mão estendida e ver mais do que 5 finos dedos que se acomodavam sobre ele. Um vento gelado veio bater-lhe na nuca e ela teve um arrepio, tinha um pouco de medo e ao mesmo tempo uma grande excitação. Fora daquele quarto um mundo novo a aguardava, um mundo que ela nunca tinha visto de verdade e agora iria ver. Um mundo terrível? Não sabia, apenas o instinto de sair a guiava para fora. Colocou a viseira na bolsa e assomou a porta do quarto. Em instantes, estaria na rua e ficaria surpresa com o que a aguardaria e o que ela nunca tinha visto antes..."
Escrito por Super-EU! às 13h45
[]
[envie esta mensagem]
|
 |
 |