"O que eu sou?
Num filme de comédia, eu seria um ator,
Numa banda, um desafinado, um compositor,
Incrível! Talvez eu seja um homem invisível, a mim você não pede mais licença, a mim, você não me dirige bom dia...Podia morrer, e a ti, nenhuma falta fazia. Eu? Eu sou aquele banco ocupado dos onibus lotados. Sou aquela pessoa apressada que esbarra em ti pela calçada, sou o chato. O mal educado. Eu sou aquele que lê um livro distraído enquanto você, de muletas em punho, caído, me pede uma esmola. Sou aquele que matou aula na escola. Eu sou o rosto que fecha os olhos as tuas tristezas, sou aquele que, de sexta, bebe cerveja. E ri, egoista, das dores do mundo. Sou o bicho imundo dentro do carro, que dirige em alta velocidade, buzina e diz maldades, e eu, não vou lhe dar um trocado e nem comprar suas balas ou doces contrabandeados. Eu sou tudo isso e mais, Eu sou o homem viciado em café de máquina, tenho maquiagem no rosto, uso gravata, esta maldita corda no meu pescoço. Eu sou o palhaço que é pago pra entreter uma platéia de engravatados. Sou um comerciante também, eu te chateio? Olha! Que eu troco minha vida e meus dias por dinheiro, quer?. Ah, mulher! Eu sou um artista! Talvez eu seja um trapezista! Que se equilibra em cima de uma corda bamba, onde o público torce para que, no meu pé, me dê uma câimbra e eu caia... Onde todos, seguram ansiosos suas críticas e vaias. Eu sou mais um, ocupando uma sala com imensas baias. Matando o tempo, não enxergando a mediocridade da vida, ansioso pela hora da saída. Eu? Eu sou o embaraço do elevador ocupado que o obriga a olhar pra baixo, calado. Eu sou aquele barulho desconcertante que vem da porta fechada do banheiro público dando descarga na privada. Eu sou aquele olhar que se dirige a seu monitor, quando você tem a impressão de que está sendo observado e olha para os lados. Eu sou o convite para almoço inoportuno, sou o bafafá da hora do café, sou alguém que você não quer. Mas ainda assim convive. Por que? Por que antes de mais nada, sou apenas mais um, que o suporta, um cidadão comum, que vê o elevador chegando, abrindo a porta pergunta:
- Desce?
- Sim, desce
... ... ...
Térreo.
- Tchau Senhor, tenha um bom dia. E um bom final de semana
- Um bom dia pra você também. Igualmente"