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Quando a Esperança se foi
" O primeiro dia em que ela se foi, estava ainda muito entretido em meus afazeres e não prestei bem atenção na indignação e no barulho que ela fez ao bater a porta, não houve nenhum movimento particular de minha parte. Estava só, e isso bastava.
O segundo dia começou estranho, abri os olhos ainda deitado na cama e não tive vontade de levantar, apenas olhava a minha imagem refletida no móvel de madeira que ficava a minha frente, uma imagem turva, descabelada e sem ter pra onde ir. Resolvi dormir até mais tarde, este sentimento iria passar, bastava respirar fundo, comer alguma porcaria na geladeira e voltar a dormir de novo. A Estratégia era essa, fingir que não via, não ouvia e também não fazer barulho. Adormeci.
No terceiro dia meu sobressalto foi maior, acordei suando na cama, uma sensação de vazio. Ela foi embora! - gritei desesperado - jogando o travesseiro longe. Levantei de pijamas e olhei pela janela, o sol brilhava e seu calor não era mais tão acolhedor como antes, era um calor cruel, abafado, as pessoas se escondiam da luz por entre as sombras. Minha visão ficou turva, minha mente embaçada, mordi uma maçã e sorri ao comtemplar um velho sendo atropelado por um carro na rua em frente. Tive inveja, eu queria ser aquele velho e não levantar nunca mais. Fechei as cortinas, ali os raios de sol não penetrariam nunca mais.
O quarto dia começou de repente como se alguém jogasse um balde d'água em sua cara ou lhe agredissem enquanto você dormia. Começou com o barulho de alguma coisa batendo na casa ao lado, ferro contra parede. O vizinho reformando a cozinha. Acordei sobressaltado, sem aquela que me deixou, com a barba por fazer e meus retratos na escrivaninha amarelando e perdendo a vida. Não sentia mais fome, meu estômago não mais reclamava, estava fraco. Deitei no sofá e voltei a dormir novamente, não sem antes pegar uma pedra e atingir a vidraça do vizinho "reformador" agradecendo pela oportunidade que me dera de voltar a esta realidade fria da casa onde estava. Eu não merecia mais uma cama, dormiria agora no sofá ou no chão que é onde os ratos e os insetos rastejantes dormem enquanto esperam a morte.
No quinto dia uma palavra não saía da minha cabeça: - Morte. Não havia mais nada a fazer sem ela, os móveis estavam empoeirados, a luz cortada e a vida que restava em mim era suficiente apenas para o último ato deste grande circo de bobagens que se transformou na minha vida depois que ela bateu a porta. Fiz uma laço com os lençóis velhos da cama, subi a mesa de jantar ainda posta esperando pela volta daquela maldita e amarrei a outra ponta do lençol enquanto pisava em talheres e pratos caros que tínhamos conseguido juntos. Liguei num radinho a pilha uma música de Beethoven que tanto gostávamos de ouvir. A Tragicomédia estava por terminar, o lençol agora em volta do pescoço, todos os poros do meu corpo suando e eu saltei. Bati ainda as costas na escrivaninha enquanto me debatia sufocando pouco a pouco com o laço que apertava cada vez mais minha garganta.
Não conseguia entender porquê ela, a Esperança, me deixou daquele jeito. Agora não importava mais, restava apenas um suspiro, um espasmo, um lamento. O fim."
Escrito por Super-EU! às 10h45
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