 |
O homem de sucesso de hoje.
" O despertador tocou desabaladamente... Eram 6:30 da manhã. Super-EU! levantou de sua cama de casal, meio cambaleante pelo quarto vazio . Foi ao banheiro para o ritual matutino. O Café já não vinha mais a sua cama com um toque tímido, mas carinhoso em seu ombro, de seu pai, que lhe dirigia uma frase: - Está na hora. Foi uma injusta troca descobriu, depois que ele não veio mais.
Era ele agora que preparava seu próprio café. Jogou água em seu rosto, penteou os ralos cabelos e se dirigiu a cozinha, reclamando algo incompreensível por causa de uma dor nas costas que teimava em aparecer sempre que se levantava. - Um dia vou ao médico para ver isso - pensou a si mesmo, já pela centésima vez.
Deixou a água fervendo e se dirigiu a sala, onde, como parte do ritual, contemplava a santa em cima de um pequeno tapetinho herdado dos pais e, ao lado, a foto de sua amada que não estava mais com ele. Aproximava-se daquele pequeno altar improvisado e pensava em alguns poucos bons momentos ao seu lado, permitindo-se derramar sempre uma pequena lágrima e em seguida voltar a ver a água do café que já fervia.
- Difícil dirigir os pensamentos ao trabalho e aos estudos quando o coração ainda bate - pensou consigo mesmo.
Tomou um café, um leite quente com chocolate, e um pedaço de bolo que comprara na padaria dia antes e se dirigiu ao quarto. Os pensamentos e as lembranças corriam pelos corredores como crianças brincalhonas que se enrodilhavam por entre suas pernas. Para esquecer das coisas, cantava uma velha canção que detestava mas que era repetitiva o bastante para preencher os pensamentos. A cama estava vazia.
Lembrava como, ano após ano, sua pequena flor murchou no jardim com o tempo. Ele concentrado em ganhar dinheiro e estudar, e ela, concentrada em chamar a atenção para outras coisas, como , por exemplo, viver. Super-EU! nunca deu ouvidos a ela, pensava que era uma grande bobagem, ano após ano conseguiu status, promoções, recursos financeiros, luxo. E a presenteava com TVs de plasma, home-theathers, jóias caras e vestidos de marca. Assim como seu velho pai lhe ensinara. E Super-EU! achava que o momento junto bastava, e que palavras e afagos, não eram a base do amor e sim um acessório, como os muitos brincos e anéis que dava a ela em todas as datas comemorativas. Estava enganado. Ela aos poucos se deprimia e um dia não mais voltou, sumindo em névoa como um sonho desaparece quando acordamos de repente pelo barulho do despertador. E, agora, ajeitava a gravata, podendo quase ver a imagem daquela menina atrás de si, com os lábios tristes olhando por cima de seu ombro e repetindo que um dia podia não haver mais Tempo. As vezes ele a comparava como uma velha boneca de pano, toda maquiada, com vestidinho de bolinhas vermelhas e que, por ninguém mexer, desgastava-se no tempo e se desmanchava aos poucos na prateleira.
Se dirigiu ao quarto, agora já bem arrumado, quase pronto para mais um dia de trabalho. Abriu o armário e olhou a foto da família pendurada na porta. Pai, mãe, irmãos e irmã, todos abraçados tirada numa viagem de férias que só conseguiram fazer uma única vez, antes que cada um seguisse seu próprio destino e se afastassem pelo bem das coisas materias e do capitalismo. Aquela foto sempre o emocionara depois que seus pais haviam partido. Mas não tinha tempo de se emocionar agora, estava atrasado! procurava seu sapato preto preferido por entre a gaveta enquanto amaldiçoava a empregada que nunca acertava onde guardar as coisas. De repente, num estalo, se deu conta de que dia era hoje. E de quanto tempo fazia já que a foto fora tirada. Quase 50 anos! Se deu conta que estava passando dos 70 e nunca deixou de seguir essa rotina monótona de acordar cedo e ir trabalhar. Apesar de ter dinheiro na conta para passar 30 anos viajando, continuava querendo mais. Malditos pensamentos rebeldes, praguejou e se dirigiu à cama ligando o radinho de cabeceira no último volume para afastar estes pensamentos.
- Um dia... Um dia reservarei um tempo para chorar e para fazer alguma viagem boa que me reconstrua o espírito. - pensou Super-EU! consigo mesmo, meio tropeçando, enquanto se dirigia para a garagem, para mais um entediante e repetitivo dia de trabalho. Era um homem de sucesso e não se orgulhava disso."
Escrito por Super-EU! às 08h36
[]
[envie esta mensagem]
|
 |
 |