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A criança no velório.
" No meio de um velório, dentro de uma grande cidade, por entre lágrimas, soluços, piadinhas do lado de fora e cafés amargos, uma criança encara o morto que está sendo velado no caixão. A criança arregala os olhos diante da face da morte enquanto é segurada no colo por sua mãe que, distraída, comenta o quanto aquele homem que jaz ali era bom em vida. A criança agora sorri para o morto, quer tocá-lo, não percebe que neste momento, as duas forças distintas que regem o universo se degladiam como furiosos romanos dentro de uma arena em que Deus é o único espectador. A criança se esforça, tenta com as mãos afrouxar as rédeas do braço da mãe que segura mais forte enquanto tem os olhos inchados de lágrimas e um respeito inconsciente por aquela coisa irremediável que todos um dia encontram no final da estrada. A criança, vitoriosa, estica o pequeno braço e toca com uma das mãos os cabelos do morto e a testa daquele que já se foi. É gelado. Um arrepio gostoso percorre a espinha daquela menina. Ela sorri. Viu naquele momento o que adulto nenhum ainda viu... Que a vida e a morte são duas faces de uma mesma moeda, e que ambas, são tão indispensáveis como a luz e a escuridão, razão pela qual o sorriso escapa de seus lábios.
Meio desajeitada, a mãe da criança tenta retomar a pose, e, puxando-a novamente para mais perto de si, tenta afastar a menina do caixão, que, desesperada, agarra com as mãos o cabelo penteado do morto. Alguns fios de cabelo ficam na mão da menina, ela abre a palma da mão e observa os tufos de fios grisalhos daquele homem que tanto lutou para que eles não caissem. Ela não entende nada do que se passa ali, aquele homem deu alguns pirulitos e passeou algumas vezes no parque com a menina, mas nunca foi realmente muito presente, por isso não entende porque todo mundo chora. Olhou em volta, viu todas aquelas pessoas com lágrimas nos olhos, viu algumas sentadas conversando distraidamente como se estivessem recebendo visitas em casa, outras com a cabeça baixa e algumas que rezavam baixinho como se fossem o próximo a estar ali e acha aquilo extremamente entediante. A menina vê então, em cima do parapeito da janela, uma borboleta linda pousar e mexer as asinhas, e ela se desvencilha da mãe e corre para fora para brincar com a vida que enxerga diante dos olhos.
No meio de um velório, dentro de uma grande cidade, por entre lágrimas e soluços, enquanto a vida brinca no jardim, pulando por entre flores e bancos de cimento, a morte, toda bem aprumada e com o melhor terno que poderia ter, é venerada e respeitada pelos homens em um altar bonito de carvalho e margaridas perfumadas."
Escrito por Super-EU! às 10h38
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