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Segredos do Cotidiano
"Muitos me perguntam de onde tiro meus ensinamentos, e, devido a simplicidade da resposta, poderei decepcionar alguns, mas quero relatar um deles que acabei por ver com meus próprios olhos... Eram tempos de esperança na juventude, comia doces com meu avõ numa padaria qualquer, quando, ao sair, um temporal desses só descritos em tempos bíblicos desabou na cidade e nos prendeu dentro daquele estabelecimento. Eu, decepcionado por ter de esperar ali, comecei a reclamar os infortúnios da vida e a falar que o que eu menos queria agora era chegar ensopado em casa... Meu avõ, com olhos tranquilos fitando as gotas de chuva que tantas vezes já vira cair sobre a terra, colocou a mão em meu ombro e disse: - Não se preocupe meu neto, a chuva, para nós, só deve molhar quando sua vontade for assim. Para todos os eventos da vida, é necessário concentração para passar por eles. Se você focar bem os seus olhos, poderá ver cada gotinha, cada espaço de infinitésimo de segundo entre elas, e perceberá que há entre elas o suficiente para nós passarmos sem nos molhar. Após dizer isso, ele colocou seu chapéu e saiu para a chuva, praticamente sem se importar com a água que caia furiosa sobre suas costas, enfim ele não se importava mesmo em se molhar. Fiquei ali, durante alguns minutos, sem entender se o que meu avõ dissera era realmente verdade ou se não passava de algum conselho falso que se dá a crianças para que elas se acalmem quando começam a se lamentar demais... Ouvindo aqueles conselhos, foquei minha visão nas gotas que caíam, tentando não me distrair com o barulho e o movimento intenso da cidade, tentava apenas me concentrar em cada uma delas, como se fossem uma parte distinta daquele temporal que caía sobre a cidade... E assim, por alguns instantes, pude notar que, existia sim, espaço por entre as gotas como caminhos mágicos que se formavam para quem quisesse passar sem se molhar. Tomei coragem e fui para a rua, desviando aqui e ali, e a quem olhasse, ou eu estava dançando na chuva ou era um louco, mas não me importei. Cheguei em casa seco, como quando saí no sol anterior ao temporal. Hoje, focando a visão como naquele dia, quando estou preso no meio do trânsito na ida ou na volta do trabalho, consigo enxergar que também há espaços por entre os carros para passarmos ilesos sem uma só parada. Não foi fácil conseguir enxergar essas coisas, por vezes, a correria deixa nossa vista embaçada, fazendo com que percamos os detalhes dos nossos acontecimentos ao nosso redor. Mas, para isso realmente acontecer, basta apenas se concentrar e não hesitar quando se começa a seguir por este caminho. Sempre conseguimos enxergar alguma coisa não vista antes quando olhamos para algo pela segunda, terceira, quarta vez. E isso vale para qualquer coisa, quando o excesso de veículos te prende ao carro, e já não é possível mais voar: Concentre-se! Há entre eles um momento ínfimo, que tem o espaço exato do seu veículo. Basta apenas se concentrar, e olhar... Além dos cinco dedos. “
Escrito por Super-EU! às 12h34
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