Ia começar o segundo ato.
Os parentes se acomodaram nas cadeiras para mais uma grande perfórmance inesquecível de uma nova estrela que nascia.
A cena recomeçou do mesmo lugar que antes, as 2 astecas algemaram o ator e, levando para uma gaiola de papelão arrancaram as roupas dele e o atiraram no chão.
A família entrou em choque. As tias remexiam-se inquietas em suas cadeiras, e, das primas, sentia-se nascer uma cócega esquisita na barriga. Pensamentos quase incesustuosos sobrevoaram os pensamentos delas... Os primos estavam chocados, tapavam com as mãos os olhos das namoradas, enquanto os pais disfarçavam o constrangimento comendo pipoca mais rapidamente. A avó assistia a tudo impassível.
Um grande desastre parecia estar por acontecer.
O segundo ato demorou muito mais que o primeiro, uma 1:30 ? Talvez mais? Não se sabia, mas as cenas malucas eram tantas que ficava impossível contabilizar todas... Homens-totens, danças ao redor de uma fogueira de celofane, danças tribais improvisadas, e, até um homem vestido de cowboy apareceu no palco para fazer não sei o quê de analogia de “montar cavalos” com escravidão humana.
Era visível o desconforto na platéia, todos estavam incomodados, uns tossiam exageradamente tentando tirar um pigarro inexistente na garganta, enquanto outros se remexiam inquietos em suas poltronas procurando uma posição que só seriam atingidas se estivessem longe dali.
O pai olhou o relógio inconformado: - Mas que diabos de peça tão demorada! O que está acontecendo ? – pensava, lutando com suas pernas que queriam sair correndo dali.
A mãe, visivelmente incomodada com as bufadas do marido tentava prestar atenção no filho que, mais uma vez, pulava como um macaco bêbado no palco, e, relembrava saudosamente, os tempos em que aquela criança deu os primeiros passos na sua frente.
Por fim, as duas astecas retiraram o ator da gaiola improvisada, e, se dirigiam para um “cenário floresta” do outro lado do palco, onde gritaram: - Com tuas idéias, a liberdade renascerá das cinzas!
E o ator, ainda em roupas indígenas abraçava efusivamente as astecas.
- Acabou! – arrematou o primo, antes das luzes se apagarem.
E a cena continuava.
- Venha, lave suas púdicas vestes no lago e renasça índio como o espírito que vive em cada um de nós! – arrematou o ator. E avançou sobre a roupa das duas astecas deixando-as com os peitos nús. Fingiram pular em um lago imaginário.
A luz do palco se apagou.
Algumas poucas pessoas ousaram bater palmas eufóricas dando : - Urruuusss – de alegria, quando, aflitos, perceberam que ainda sobrava tempo para mais uma dança maluca contemporânea.
Tambores, maracas, música eletrônica, e, muitas giradas de pernas pra cima depois, todos os atores aparecem em cena e, a platéia, enfim, tem a certeza que a peça acabou.
Aliviadas, as pessoas levantam-se espalhafatosamente de suas cadeiras. Batem palmas como se tivessem acabado de presenciar uma obra encenada pelo próprio Shakespeare. As tias começam a dar gritinhos emocionadas e deixavam escapar, chorosas, algumas lágrimas por debaixo do óculos.
Um dos primos sussurra no ouvido da namorada: - Graças a Deus acabou.
A namorada o censura, nem adianta falar nada a ele, não tivera a sorte de encontrar um namorado que entendesse de arte e por isso contém-se em apenas aplaudir o futuro parente.
Na saída, a família espera por seu futuro ator à porta do camarim. E, quando ele aparece ao cruzar a porta todo suad, todos os cumprimentam como se acabasse de ganhar na loteria.
– Você estava ótimo!
- Parabéns!
- Adorei aquele lance da dança!
- Você leva jeito rapaz, aprendeu comigo!
- Aaaaai meu afilhado, que orgulho!
E etc, etc, etc... Só duas pessoas ficaram alheias a tudo isso, a avó, que acabou achando tudo aquilo uma imensa safadeza ( somente por causa de 2 peitos nús e uma nudez dorsal do ator. ) e o pai... Que, tem saudades da época das peças mudas.
Essa arte de hoje não serve para mim, sou burro demais para entender dessas coisas. Concluiu, enquanto se dirige, demoradamente para o carro com os parentes alvoroçados e surpreendidos com tamanha habilidade “contemporânea” do futuro filho. “