Vida Longa ao Super-EGO
     
BRASIL, SAO PAULO, Homem, de 20 a 25 anos, Catalan, Cinema e vídeo, Livros
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A peça em cartaz - parte 1

“- Tenho um filho artista – anunciou a mãe orgulhosa na mesa de jantar, quando a família se reunia num final de semana.  – Ele vai estar em cartaz essa semana, por que não combinamos todos de vê-lo?

As tias, primos, primas e avós ficaram entusiasmados, todos concordaram em uníssomo dar o apoio necessário ao parente-ator-iniciante que tinha sua primeira peça em cartaz.

- Vou ter o orgulho de dizer: - Eu fui na primeira peça do futuro Paulo Autran! – declarou o tio, com o copo ao ar e meio alto com o Wiskye servido a ele hora antes.

O pai não procurou se pronunciar, essas coisas modernas ele nunca entendeu direito, achava meio esquisito, um atentado a própria inteligência que outros tinham a coragem de chamar de arte. O Filho fazia dança contemporânea, ninguém sabia ao certo o que significava, mas como apoio e, pelo amor paternal, não ousou dizer palavra até depois da peça.

No dia combinado, todos se encontraram na casa do futuro Pai-do-ator-famoso-global que estaria por vir. As tias vieram perfumadas, maquiadas, com roupas elegantes de “vou a um concerto de orquestra sinfônica”. Primos trouxeram suas namoradas, as primas solteiras declararam animadas umas às outras: - Quem sabe não tenho a chance de conhecer o camarim de um amigo dele? Artistas normalmente são gatinhos!.

E, como convém às grandes famílias, partiram atrasadas para a peça, em um passeio preenchido por fofocas de parentes de fora, piadinhas de atores de teatros e uma expectativa voraz crescente que enchia o carro de sorrisos toda vez que o nome do filho era pronunciado.

Enfim chegaram ao Teatro, enfretaram guardadores de carros vorazes, parentes de outros atores que se acotovelavam na porta e uma espera de mais de meia hora de atraso como maratonistas experientes que pulam os obstáculos da prova. A mãe permitiu-se pipoca doce e o pai fumar seu último cigarro antes de entrar no salão. Se acomodaram nas poltronas.

A 3. fila lotou de parentes sorridentes que continuavam a conversar acaloradamente.

Soou o primeiro toque.

A expectativa na platéia era palpável como o cheiro do algodão doce num parque de diversões.

– O que quer dizer esse barulho? – declarou o tio do interior, meio desacostumado com os costumes do espetáculo.

- Fique quieto, você não entende nada, vai começar o show. – declarou a esposa, inconformada com a ignorância do marido.

A avó do futuro ator não se incomodou com a algazarra da família, estava feliz simplesmente por ter saído de casa, fazia décadas que não entrava no teatro. – Desde quando eu e o Berto nos casamos nunca mais fui em um – declarava ela à todos, contando em seguida uma história que ela já tinha contado milhões de vezes mas que todos ouviam por respeito ao idoso.

Segundo Toque.

Todos se calaram, a prima levantou rapidamente para cuspir o chiclete e ir a um banheiro para uma última olhada no espelho. A mãe limpava as mãos engorduradas de doce num lenço e já imaginava vendo o filho na novela das 8. As luzes estavam ficando mais fracas.

Terceiro Toque.

Por fim, a escuridão foi total, ouviam-se tossidas e ajeitadas cheias de expectativa nas cadeiras.

 - Vai começar! Vai começar! – declarou a mãe, enquanto a prima voltava correndo do banheiro atrapalhando o resto da família. Pés e joelhos foram movimentados. Sentou-se.

Triunfal, a cortina se abriu. Era um palco vazio, folhas secas espalhadas pelo chão enfeitavam o ambiente ali em cima.

Um dos tios, de idade mais avançava espremeu o olho tentando notar, se , a visão já gasta pelo tempo não tinha deixado passar alguma coisa.



Escrito por Super-EU! às 11h14
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A peça em cartaz - parte 2

" Começou-se a ouvir batidas de tambor.

O Filho apareceu. Vestido de índio. E pulando como um macaco bêbado numa festa na floresta.

- Psssssss – o primo se conteve, quase explodindo de gargalhadas na platéia, recebendo uma cotovelada de leve da namorada antes que ele fizesse barulho.

Todos arregalaram os olhos. Das pessoas, nem a respiração podia ser ouvida.

Mais batidas de tambor, o filho, ainda pulando, começou a se jogar no meio das folhas secas do palco e, levantando os braços pra cima, jogava as folhas para todos os lados como um hipópotamo tomando banho num lago. Rolou no chão, 1, 2, 3 vezes...

A avó pensou incomodada da platéia: - Ai meu deus! Dor de barriga justo nessa hora! Aguenta meu neto, aguenta! – torceu incomodada e ingênua.

Os tambores aumentaram de intensidade e de velocidade.

Uma das tias tirou o casaco e o colocou no colo, a concentração era tamanha que estava dando calor.

De súbito, em cima do palco, apareceu um outro ator. Vestido de Totem indígena, sendo arrastado por duas mulheres astecas como se fosse uma marionete de cordas arrebentadas.

As astecas deixou o Homem-Totem no meio do palco. Quando o filho gritou:

- Por quê, Civilização Moderna, me incomoda com suas crenças??? Não deverei eu, tomar água da fonte e da cachoeira e simplesmente acreditar??? – declarou o filho, entusiasmado enquanto rodeava as 2 astecas e o homem totem.

O coração das tias disparou, nunca tinha ouvido a voz do sobrinho tão alta... Tão... tão... tão... Confiante!

O pai apenas acenou com a cabeça em aprovação. Por dentro gritava de emoção como se o filho tivesse mandado a bola pra fora do estádio em uma partida de beisebol.

No palco, as duas astecas algemadaram o filho ator, e ele, com olhos lacrimejantes anunciou: - Já estava preso sem as algemas, estava nú mesmo com essas roupas.

Todos começaram a dançar novamente, o homem-totem ensaiava alguns passos desengonçados pelo palco, falando como um pastor de igreja batista enquanto as astecas, com passos ensaiados davam voltas em torno do filho e movimentavam pernas e braços como uma Madona da América Latina.

Desce a cortina.

Fim do primeiro ato.



Escrito por Super-EU! às 11h14
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A peça em cartaz - parte 3

" Pausa para 10 minutos.

A família fica alvoroçada. – Esse é o meu filho! – anuncia orgulhosa a mãe.

Embora nenhum dos parentes tenha entendido absolutamente nada do que estava passando em cena, todos estavam orgulhosos. Uns comentavam com os outros com intensidade exagerada as habilidades teatrais do afilhado.

Os primos aproveitaram pra comprar algo pra comer e tudo se transformou num grande piquenique.

Ia começar o segundo ato.

Os parentes se acomodaram nas cadeiras para mais uma grande perfórmance inesquecível de uma nova estrela que nascia.

A cena recomeçou do mesmo lugar que antes, as 2 astecas algemaram o ator e, levando para uma gaiola de papelão arrancaram as roupas dele e o atiraram no chão.

A família entrou em choque. As tias remexiam-se inquietas em suas cadeiras, e, das primas, sentia-se nascer uma cócega esquisita na barriga. Pensamentos quase incesustuosos sobrevoaram os pensamentos delas... Os primos estavam chocados, tapavam com as mãos os olhos das namoradas, enquanto os pais disfarçavam o constrangimento comendo pipoca mais rapidamente. A avó assistia a tudo impassível.

Um grande desastre parecia estar por acontecer.

O segundo ato demorou muito mais que o primeiro, uma 1:30 ? Talvez mais? Não se sabia, mas as cenas malucas eram tantas que ficava impossível contabilizar todas... Homens-totens, danças ao redor de uma fogueira de celofane, danças tribais improvisadas, e, até um homem vestido de cowboy apareceu no palco para fazer não sei o quê de analogia de “montar cavalos” com escravidão humana.

Era visível o desconforto na platéia, todos estavam incomodados, uns tossiam exageradamente tentando tirar um pigarro inexistente na garganta, enquanto outros se remexiam inquietos em suas poltronas procurando uma posição que só seriam atingidas se estivessem longe dali.

O pai olhou o relógio inconformado: - Mas que diabos de peça tão demorada! O que está acontecendo ? – pensava, lutando com suas pernas que queriam sair correndo dali.

 A mãe, visivelmente incomodada com as bufadas do marido tentava prestar atenção no filho que, mais uma vez, pulava como um macaco bêbado no palco, e, relembrava saudosamente, os tempos em que aquela criança deu os primeiros passos na sua frente.

Por fim, as duas astecas retiraram o ator da gaiola improvisada, e, se dirigiam para um “cenário floresta” do outro lado do palco, onde gritaram: - Com tuas idéias, a liberdade renascerá das cinzas!

E o ator, ainda em roupas indígenas abraçava efusivamente as astecas.

- Acabou! – arrematou o primo, antes das luzes se apagarem.

E a cena continuava.

- Venha, lave suas púdicas vestes no lago e renasça índio como o espírito que vive em cada um de nós! – arrematou o ator. E avançou sobre a roupa das duas astecas deixando-as com os peitos nús. Fingiram pular em um lago imaginário.

A luz do palco se apagou.

Algumas poucas pessoas ousaram bater palmas eufóricas dando : - Urruuusss – de alegria, quando, aflitos, perceberam que ainda sobrava tempo para mais uma dança maluca contemporânea.

Tambores, maracas, música eletrônica, e, muitas giradas de pernas pra cima depois, todos os atores aparecem em cena e, a platéia, enfim, tem a certeza que a peça acabou.

Aliviadas, as pessoas levantam-se espalhafatosamente de suas cadeiras. Batem palmas como se tivessem acabado de presenciar uma obra encenada pelo próprio Shakespeare. As tias começam a dar gritinhos emocionadas e deixavam escapar, chorosas, algumas lágrimas por debaixo do óculos.

Um dos primos sussurra no ouvido da namorada: - Graças a Deus acabou.

A namorada o censura, nem adianta falar nada a ele, não tivera a sorte de encontrar um namorado que entendesse de arte e por isso contém-se em apenas aplaudir o futuro parente.

Na saída, a família espera por seu futuro ator à porta do camarim. E, quando ele aparece ao cruzar a porta todo suad, todos os cumprimentam como se acabasse de ganhar na loteria.

 – Você estava ótimo!  

 - Parabéns!

 - Adorei aquele lance da dança!

 - Você leva jeito rapaz, aprendeu comigo!

 - Aaaaai meu afilhado, que orgulho!

E etc, etc, etc... Só duas pessoas ficaram alheias a tudo isso, a avó, que acabou achando tudo aquilo uma imensa safadeza ( somente por causa de 2 peitos nús e uma nudez dorsal do ator. ) e o pai... Que, tem saudades da época das peças mudas.

 

Essa arte de hoje não serve para mim, sou burro demais para entender dessas coisas. Concluiu, enquanto se dirige, demoradamente para o carro com os parentes alvoroçados e surpreendidos com tamanha habilidade “contemporânea” do futuro filho. “



Escrito por Super-EU! às 11h12
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