Trânsito na Marginal
Tempos de inspirações curtas.... Também, com esse trânsito todo!
“ Trânsito parado. Tempo nublado. Final de sexta-feira na volta de casa. O Caos de sempre.
O rádio do carro cuspia propagandas em seu rosto, e, por causa do barulho do lado de fora ele era obrigado a fechar o vidro e ligar o ar-condicionado.
- Preciso trocar esse filtro de ar.
Ar-condicionados sempre o deixavam com a garganta irritada, sempre preferiu o ar natural e o vento no rosto, aquela poluição e a falta de revisão no carro fazia-o tossir a intervalos regulares.
Pensava na vida enquanto o cotovelo procurava um lugar confortável pra se apoiar no vidro da janela:
- Como era triste a vida humana.
O trânsito para ele era um grande rio de águas vermelhas piscantes que corriam para lugares desconhecidos, os carros no tráfego brigavam por espaços ínfimos se atirando uns na frente dos outros conseguindo posições à frente como numa poly-position de tartarugas. Estava naquele anda-e-pára há quase 40 minutos sem ter para onde correr e, pelo jeito, hoje iria demorar pra voltar pra casa. O que aconteceria com ele se, nesse momento, não houvesse mais espaço para os carros andarem? Se, no final daquele caminho, um carro dependesse do outro para andar que dependia, do primeiro? Morreria ali, até a gasolina acabar?
Tentou deixar de pensar naquilo, pensar demais no trânsito sempre o deprimia, por isso levava no carro um livro de cabeceira qualquer que o levasse daquele inferno urbano a que todos os dias era submetido.
Então notou pequeno espaço á esquerda. Ultrapassou. Espaço a direita. Jogou o carro em cima de um velho Corsa que estava distraído. Ultrapassou. Ganhava posições e sentia com isso um pequeno prazer ao conseguir ultrapassar alguns carros deixando-os para trás, o que, não durava muito, pois, minutos depois, ia para uma fila que andava menos e lá estavam os carros ultrapassados novamente ao seu lado.
Estava começando a perder a paciência, logo, aquele pequeno homem no carro se transformaria num idiota insano que buzinava para todos e ameaçava jogar o carro em cima dos motoqueiros que passavam por causa de ciúmes.
Não enxergou o céu que se unia com o rio poluído lá de cima da ponte, nem tampouco as folhas secas das árvores que brincavam de pique por entre os carros anunciando a chuva que viria. Não viu o casal apaixonado se beijando no carro de trás que perdia posições pela sua indiferença ao transito, nem a beleza simples da vendedora de água mineral que se arriscava no meio dos carros e caminhões desviando de motocicletas.
Não viu a vida passar enquanto o carro e o tempo parava. Só via a luzinha do carro vermelho, acendendo, apagando, acendendo, apagando, num sinal de alerta de perigo para a sua vida que se apagava no meio da Marginal. “
Escrito por Super-EU! às 19h42
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