A separação parte 1
“ Parece que conforme o tempo passa, vamos deixando algumas coisas pelo caminho...
Ainda lembrava da época em que tinha medo de dormir no escuro e havia ursos de pelúcia na cama para abraçar, a cama era grande e os dias de aula do ginásio eram como um intervalo de um filme bom na tv para se preparar a pipoca.
Quando cresceu, deixou pra trás os ursos de pelúcia e foi obrigado a engolir sapos e a carregar responsabilidades... Sentiu um leve gelamento na garganta quando engoliu o primeiro e levou a vida adiante. Onde dava aquela montanha? repetia ele, sempre buscando o topo, deixando os momentos de prazeres da vida baixa para levar uma vida de rei quando chegasse lá.
A TV, quando ligada, vomitava lixo em direção aos olhos e aos ouvidos, provou a primeira vez e sua língua rejeitou. Resolveu deixá-la desligada enquanto ainda era possível andar. Saiu pela cidade dos homens, tomando o cuidado de não fitá-los nos olhos, pois, a humanidade não gostava de ser encarada de frente. Passou incólume pelos vendedores de cartões de crédito e pelas igrejas abarrotadas de fiéis.
Em certo momento, não muito sério, aceitou um emprego, contribuindo, de bom grado para a sociedade economicamente ativa. Deixou pra trás o sonho de salvar vidas, de ser médico, para conseguir bens materiais, subir sua montanha particular e resolveu trabalhar com computadores. Gostou de ver documentos com firmas reconhecidas em seu nome... Resolveu colecioná-los como quando fazia com as figurinhas.
Juntou documentos de carros, de apartamentos, de empresas, e, mesmo assim, sentiu-se só. Quando olhou da janela do apartamento, viu do outro lado da rua, o coração que havia esquecido por aí.
Uma menina passou, abaixou-se para pegá-lo e ele correu para lá. Ela ofereceu o órgão pulsante de volta e ele não quis aceitar, disse que era de quem o encontrasse... E assim, se juntaram, trocaram sonhos e ilusões que levavam nos bolsos e moraram na mesma casa... Criou-se uma lenda de que a esperança no amor nasceu nesse dia, e ele comprou uma aliança bonita e reluzente de prata simbolizando tudo aquilo. Os anos enfim passaram rápidos como uma tarde alegre de infância na casa da avó.
Num belo dia, entre a primavera e o verão, quando as folhas das árvores e o vento jogam bola juntos no campo de futebol dos homens, o anel desapereceu… Evaporou-se como os sonhos evaporam quando o despertador toca.
Ao notar o sumiço, ele quis explicar a ela o que aconteceu e uma pequena rachadura no coração de ambos apareceu. O tempo lhe pareceu mais frio àquela hora do dia e, ao invés de ambos se abraçarem, pegaram um casaco de lã nos armários e sairam para trabalhar e o relacionamento não foi mais o mesmo.
Nesse dia, não foi só o anel que sumiu, alguma coisa a mais também estava faltando, talvez a sinceridade não esteve presente nquando precisaram ou, talvez o que faltou mesmo, foi um pouco de coragem para admitir a tristeza por aquele momento de perda.
À noite, sozinhos em suas camas, não tiveram coragem de se olhar nos olhos, dormiram virados de costas um pro outro, e, entre o espaço vazio entre eles nasceu a desconfiança, o medo da solidão, e os monstros de sentimentos ruins que permeiam nossa angústia.
Dos dias que se seguiram, entre copos de cerveja e jantares onde o silêncio reinava, a TV voltou a ser ligada para novamente encher os pensamentos de lixo. O descontentamento bateu à porta e calou o amor que costumava morar na casa.
Um dia, entre o barulho da louça do jantar sendo lavada e o comercial das Casas Bahia na TV, ela o surpreendeu com a frase:
- Precisamos conversar seriamente.
E nisso, toda a verdade guardada e todos os monstros dos armários apareceram na cozinha, e ele, sabendo que esse dia chegaria consentiu a separação com um aceno de cabeça.
Ela pegou uma bolsa colorida, tomou um copo de água para molhar a garganta e o coração que estavam secos e se foi. “
Escrito por Super-EU! às 16h32
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