Vida Longa ao Super-EGO
     
BRASIL, SAO PAULO, Homem, de 20 a 25 anos, Catalan, Cinema e vídeo, Livros
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O Funeral

“ Tarde chuvosa de um dia atípico de verão... Super-EU! participava de um funeral um tanto quanto incomum em sua vida, tinha a sua frente dois corpos sendo sepultados ao mesmo tempo. Com um guarda-chuva grande, ele se escondia por debaixo de sua capa sentindo algumas fugídias gotas de chuva refestelar-se forte em partes descobertas do corpo ouvindo um padre caquético fazer orações em uma língua morta que  não faziam sentido pra ele, mas que produzia em seu espírito um arrepio gostoso ao ouví-lo.

  Prestou atenção em sua volta, só ele veio participar daquele funeral, queria que fosse assim de qualquer forma. Era exatamente como imaginava, dois caixões no fundo de uma mesma vala, um ao lado do outro, enxarcando-se em uma chuva purificadora. Ele por vezes reluzia com os insistentes relâmpagos que riscavam os céus produzindo um efeito aterrorizante e semelhante ao período duro da vida em que estava passando. O padre segurando uma grande bíblia profetizava vestindo uma roupa negra e um chapéu enorme que o protegia da chuva, via seus olhos, tinha os olhos frios e mansos de quem já se acostumara com aquele ritual. Imaginava que ele já presenciara tantos velórios que já não lhe restava surpresa alguma em qualquer reação que o público teria.

  Super-EU! estava chocado, eram duas criaturas jovens que estavam ali naquela caixa de madeira, uma criança e um adolescente que tiveram seus sonhos interrompidos e um sorriso raptados que nunca mais seriam resgatados. Lembrava bem da morte de cada um deles, a criança morreu quando jogou sua chupeta pela janela. Ainda lembrava-se dela exultante pelo corajoso ato, seus olhos brilhavam como fagulhas de fogo na noite, pulava heroicamente pela cozinha. Ela fora incentivada a fazer aquilo com a promessa de presentes futuros e ali começou a desvanecer, não percebera que, naquele momento seu grande conforto em momentos de angústia tinha acabado, que haveria menos tempo para dormir e menos brinquedos para brincar, e que, dali em diante sua morte seria silenciosa e solitária como a morte dos idosos em asilos da cidade... Nem ele mesmo percebeu quando a criança havia morrido, lembrava-se apenas dessa vaga passagem e de sua última aparição quando a viu chorosa descendo o elevador para uma escola ao qual não queria ir, mas fora obrigada pela mãe a comparecer. Com o adolescente não foi muito diferente, aahhh, quantos sonhos e coragem tinha aquele rapaz. Também tinha os olhos brilhantes como os da criança, mas tinha uma expectativa para o futuro que contagiava qualquer um, com ele dava a impressão que nada era impossível, que as noites tinham um brilho mágico e uma surpresa gostosa de esperar, com ele o escuro do cinema tinha um sabor malicioso das suas paixões adolescentes e que, apesar de suas já pesadas responsabilidades, tinha um grupo unido que fazia com que a vida fosse para ele um filme épico de efeitos especiais inacreditáveis. Lembrava-se bem quando prometera a si mesmo que, com o dinheiro que ganharia, reservaria tempo para viajar pelo menos uma vez por ano para conhecer lugares que nenhum familiar já tinha ido, e faria amizades, e teria experiências, e teriam tantos amores que fariam a vida valer a pena de verdade... Coitado. Sua ambição o matara antes mesmo de fazer sua segunda grande viagem, em sua afobação adolescente foi em busca de um adiantamento no período da vida, quis trilhar um caminho aquém do que seu tempo permitia e esquecera que pra uma fogueira, não era necessário somente a lenha certa, mas também um tempo suficiente para apreciá-la sentado. Deveria se poder sentir o calor das chamas e a beleza de sua cor avermelhada, ou senão tudo seria em vão.

  Por um momento, Super-EU! sentiu que não eram somente gotas de chuva que molhavam seu rosto, eram resquícios de algumas lágrimas que começaram a cair e ele apertou o coração para impedir que elas continuassem. Não era sempre que via seu próprio funeral, e não era sempre que ele resolvia enterrar dois períodos de seu passado de uma só vez. Aquilo era duro, mas sabia que não era tão duro quanto o que viria pela frente. “

 



Escrito por Super-EU! às 13h16
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